"Ele sabia que por vezes era preciso que coisas vivas fossem mortas para que outros vivessem." Rubem AlvesA cadeia alimentar prendia seus pensamentos. Eu, que só podia me fortalecer bebendo suas filosofias cíclicas, seus olhos grandes e redondos e a belíssima ruga desenhada em sua testa infantil, questionava toda a existência. Por que haveríamos de nascer se acabaríamos morrendo?
A relva nasce na terra, se alimenta de nutrientes e morre.
O boi nasce, se alimenta da relva na terra, que se alimenta dos nutrientes e morre.
O homem nasce, se alimenta do boi, que se alimenta da relva na terra, que se alimenta dos nutrientes e morre.
De tiro, de acidente, de doença. Já soube de quem morreu de tédio e até de amor.
O homem morto volta para a terra. A mesma da qual brota a relva, pasta o boi, pisa ou jaz o homem.
Costumava terminar sua odisséia mental falando sobre a liberdade. Devaneava sobre uma tal porta cuja chave dourada destrancaria sua linha de raciocínio. Depois, pegava o lápis, ía para a linha do caderno e escrevia o que mais me saciava:
"Nós ainda temos fome."

